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NACIONAL - Sem ações, faltará UTI para 42 mil

26 de março de 2020

Quase 42 mil brasileiros com quadro grave de Covid-19 ficariam sem vaga na UTI, e mais de 37 mil sem respiradores, caso a epidemia atingisse uma parcela da população comparável à alcançada em Wuhan, na China, e caso a disseminação do novo coronavírus tivesse velocidade semelhante, sugere um novo modelo matemático que simula a saturação do sistema de saúde brasileiro. Nesse cenário, a primeira onda da epidemia duraria 79 dias e infectaria 1 milhão de brasileiros, ou 0,5% da população.

Num cenário hipotético de maior contágio, em que a epidemia atingisse 3% dos brasileiros, ou 6,3 milhões, faltariam vagas na UTI para mais de 300 mil e respiradores para 293 mil, por um período de 91 dias. Mesmo num cenário agressivo de contenção do vírus, que estendesse a duração da epidemia por 148 dias e achatasse a curva de contágio, faltariam mais de 15 mil UTIs e 13,5 mil respiradores no pico da demanda (ao todo, o Brasil dispõe de 22,7 mil leitos de UTI privados e 21,5 mil públicos)

No cenário mais otimista, em que fossem suspensas todas as cirurgias eletivas para liberar vagas nas UTIs e, além disso, a capacidade de atendimento crescesse 10%, ainda haveria uma carência de quase 2 mil leitos de terapia intensiva no pico da epidemia, e mais de 2.500 infectados ficariam sem esse recurso essencial para salvar suas vidas.

 

Na prática, quem tivesse um quadro grave da Covid-19 e ficasse sem vaga na UTI passaria a viver o drama das centenas de europeus condenados pela superlotação dos hospitais com casos de doença. “Pacientes que necessitam estar em regime de tratamento intensivo, se não tiverem acesso, terão probabilidade muito alta de morte”, afirma Gonzalo Vecina Neto, da Faculdade de Saúde Pública da USP, responsável pelas premissas teóricas que embasaram os cálculos do matemático Lucas Amorim, doutorando na Universidade do Porto, e do economista Gustavo Kay, graduado na USP.

O objetivo do modelo elaborado pelos três, cujos resultados estão no artigo “Cenários para a demanda vs. oferta de leitos de UTIs e respiradores na epidemia Covid-19 no Brasil” (uma amostra é resumida nos gráficos ao final desta reportagem), não é prever quantos brasileiros serão infectados nem quantos morrerão. Não se trata de um modelo epidemiológico, como os elaborados recentemente por pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto Oswaldo Cruz ou do Imperial College. Em vez tentar projetar o alcance ou o número de mortos na epidemia, a ferramenta simula o estresse provocado pela Covid-19 no sistema de saúde.

Com base no número de infectados estimado para cada estado da federação, o modelo avalia quantos precisarão de leitos de UTI ou de respiradores artificiais, de acordo com os dados do Ministério da Saúde e do Conselho Federal de Medicina. A demanda pelos dois recursos é comparada à oferta disponível, seguindo a evolução diária do contágio. O cálculo depende de dois parâmetros: a proporção da população que se supõe ter sido infectada ao final da epidemia e a velocidade intrínseca de propagação do vírus (afetada por características biológicas e pelas políticas adotadas para combatê-lo).

Como todo modelo matemático, trata-se não de um retrato absolutamente fiel, mas de uma simplicação para nos permitir enxergar melhor uma faceta da realidade. Dificilmente a epidemia terá o mesmo comportamento no Brasil todo. Na planilha disponível com o estudo, é possível variar os parâmetros para simular o impacto da Covid-19.

 

“O modelo permite às autoridades simular diferentes cenários para o uso dos recursos hospitalares brasileiros em cada um dos estados”, diz Amorim. “Pode ser adotado como ferramenta exploratória no planejamento para o combate da epidemia.” Na elaboração dos gráficos e quadros para esta reportagem, meramente ilustrativos, foram considerados quatro cenários, uniformes para todos os estados:

 

  1. No cenário-base, o vírus se propaga com parâmetros compatíveis com os verificados em Wuhan: 30% de crescimento diário dos infectados no início da epidemia e 0,5% da população infectada no final;
  2. No segundo cenário, mais pessimista, a doença se propaga com a mesma velocidade, mas atinge bem mais gente: 3% da população. Trata-se de um cenário ainda conservador, se levarmos em conta que o total de infectados numa epidemia dessa natureza sem nenhum tipo de controle chegaria a entre 20% e 60% dos brasileiros (e os gráficos comparativos provavelmente nem caberiam nesta página);
  3. No terceiro cenário, a doença atinge a mesma parcela da população que no primeiro (0,5%), mas políticas de isolamento, distanciamento social e outros controles reduzem a velocidade de propagação à metade (15% ao dia). Com isso, a infecção se estende no tempo, achatando a curva de contágio (leia mais neste post);
  4. No quarto cenário, além das políticas adotadas para deter o vírus, os hospitais adiam todas as cirurgias eletivas – na avaliação de Vecina, isso liberaria em torno de 30% da capacidade nas UTIs – e também há um investimento suficiente para ampliá-la em 10%.

 

Com tal ampliação, a necessidade de leitos de UTI cairia de 42 mil no cenário-base para 32 mil. A suspensão das cirurgias eletivas poderia reduzi-la um pouco mais, a 18 mil. Adotadas em conjunto, as duas medidas alcançariam, segundo o modelo, redução até 13 mil. Apenas acopladas às medidas para deter o contágio, como o isolamento social, poderiam limitar a escassez dos leitos de UTI a pouco mais de 2.500 no Brasil todo. Em nenhum dos demais cenários há redução comparável.

 

Quanto custaria investir nesses leitos? Pelas contas de Vecina, a instalação de cada um custa R$ 150 mil, e a operação gira em torno de R$ 5 mil diários por paciente. De acordo com os dados usados no modelo, depois da suspensão das cirurgias eletivas faltariam 3.717 vagas em UTI para atender a demanda, cada uma usada por uma média de 10 dias. Considerando que as taxas de ocupação das UTIs do SUS são de 90%, isso corresponderia a quase 4 mil novos leitos.

Fazendo, portanto, a conta do custo de instalação e operação, chegamos a um investimento perto de R$ 800 milhões, sem contar gastos em construçao e infra-estrutura. Não parece um valor absurdo para reduzir o impacto devastador da Covid-19. A dificuldade: boa parte dos leitos que podem salvar vidas pertence à rede privada e não está, portanto, disponível a todos os brasileiros.

Embora a quantidade de vagas nas UTIs dos hospitais privados seja equivalente à dos públicos, elas estão acessíveis apenas aos 48 milhões de brasileiros que têm planos de saúde. Uma ideia aventada por Vecina é que o SUS remunere de algum modo os hospitais privados pelo uso dos leitos pelos seus pacientes se houver carência. Se isso não for feito, o brasileiro com plano de saúde terá quatro vezes mais chance de salvar quando pegar a Covid-19 – mas nem isso servirá de garantia caso a epidemia se alastre a ponto de levar ao colapso todo o sistema.

Fonte: G1


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